CAOSSADA pisada por Ricardo Wagner


 O CRIME DO TALENTOSO MEDÍOCRE

Valerie Simmons - Canada "Day 1"

 

BEWEGUNG 1

Após o desfecho, Ele estava fadado à incapacidade de sentir se estava em pé ou deitado, inerte ou em ação, sobretudo se ainda vivia ou se já fenecera. Ademais, cercearam-se-lhe as percepções basilares: visão, audição, olfato et reliqua. Naquela agonia extrema, Ele não podia constatar se havia ou não outrem Consigo – o que configura uma dubiedade pior que a certeza da solidão. Em verdade, se alguém adentrasse aquele lugar, ao menos por um segundo, este morreria de súbito, apavorado com imensurável beleza. O ambiente dispensava adjetivações. E Ele, apesar de saber o que O circundava, não poderia jamais percebê-lo. Inexistia contato – a não ser com as lembranças filhas dum passado triunfante. Mas agora, isolaram-No, ali, trancafiado na impotência. Seu crime? Desfez-se das asas.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:49:48 PM
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BEWEGUNG 2

O inferno advém da absoluta esterilidade sensorial. Os incautos associam sofrimento a dor. Sendo assim, no que consiste então o masoquismo, senão o prazer oriundo da submissão a castigos carnais e morais!? Inferno mesmo abarca a supressão tanto da dor quanto do gozo. Há ainda os que preconizam ser um lugar destinado tão-só a infratores. Em verdade, todos, quando findada a serventia da carne, vão a um mesmo lugar. Ocorre que nem todos perceberão. Reitero: inexiste inferno enquanto sendo ambiente físico. Pois Ele está com os outros anjos – os subordináveis. E apesar de saber disso, não respira a paz celeste. Confinaram-No ao suplício à idéia de que pisa os céus, e de que jamais poderá sentir sua maciez. Ele estava ali. Só. Juro. Estive ali por um instante. Posso provar. Ainda percebo. Acho.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:49:17 PM
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BEWEGUNG 3

Ocorreu quando ajustei-me numa escadaria: ponte entre o céu e o inferno, visto que esta instiga tanto à ascenção quanto ao declínio. Bêbado, de praxe. De longe, já avistava-O. E Ele acenava como se me conhecesse. Mas, sabe-se lá o porquê, também senti que já conhecia o Estranho. Ele apropinquava-se, enquanto eu juntava guardanapos e lenços de papel, donde constavam esboços ininteligíveis. Ele sentou-se. De costas. Sobre o primeiro degrau, lá embaixo.

¾ Leia para mim, leia... – insistia.

O coitado portava um livro sujo (bíblia). Hesitei em desprezá-lo. Com dificuldade li, apesar de subestimar o Seu entendimento acerca do que escrevinhara. O pobre coitado abriu o que só a capa era a de uma bíblia: o miolo era falso. Levantou-se. E levantando a voz, empolgava-se naquelas quadras. Andava de um lado para outro.

¾ Gostou? – Ele gritou.

Acenei com a cabeça um "sim", embora entendesse bulhufas. Depois, Ele pegou do poema que lia, e preparou um cigarro. Entre uma baforada e outra, retocava fatos absurdos. E gizou:

¾ Você tem o direito ao benefício da dúvida, se acha que sou alguém. Pode se contentar com a fé, se minha figura é a de um louco! – franzindo o sobrolho, e em postura austera.

Neste momento eu desci. Ele, sem enjeitar mímicas e minúcias, viajava naquelas mentiras. E com a mesma intensidade com que se apegava ao passado, externava aversão pelo futuro. Mormente quando deliberávamos no tocante ao fim dos tempos. Declamei meus cantos guardanapados, medíocres sonetos. Ele gargalhava, caçoando.

¾ Por que você é tão arrogante? – acusou-me

¾ Eu? – novamente desentendido, retorqui.

¾ Fica aí, achando que é o tal! Antigamente era diferente. Você adorava meu nome! Hoje me rejeita. Filho da puta... Ah! Quer saber, seu dia chegou – asseverou, e agressivo introduziu, fugazmente, a mão no interior da jaqueta.

¾ Nã... Não! – gaguejei.

¾ Calma, cuzão! Você nem sabe o que intento oferecer e já faz recusa! Tome. Sem ressentimento. Seu dia chegou, babaca! – salientando bem a entonação com este adjetivo.

Naquele momento, Ele perfurou a palma da mão esquerda, sangrando-a. Molhou a ponta naquele sangue denso qual nanquim.

¾ Se você almeja tanto convencer, escreva com esta pena – e retirou-se.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:48:40 PM
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BEWEGUNG 4

E como em qualquer conto de fadas, os anos da realidade também pesam e esvoaçam. Eu que percebia aquele salário irrisório, estagiando na Defensoria Pública, no ínterim, encontro-me endinheirado. Agora, atinente ao prometido por Ele, em verdade jamais depositei credibilidade no meu potencial literário. É que inexistia algum poeta bem sucedido, financeiramente. Além do mais, eu achava meus versos capengas, embora Ele incentivasse minhas palavras. Duvidei. E nunca mais ousei sequer uma metáfora. Destarte, então decidi centrar minha pretensão na carreira jurídica. Logo que logrei aprovação no Exame da Ordem, arrisquei, em sociedade, um escritório particular. Desde então, firmava todas as minhas petições com aquela ignota pena. Sucesso em poucas causas. Mas acresço, por oportuno, que, inacreditavelmente, com todos os clientes acusados de cometer homicídio (que hodiernamente, em nenhuma hipótese prevista pela Lei, admite hediondez, pois a clonagem substitui as vítimas), estupro, tráfico e ilicitudes congêneres, logrei absolvição – e honorários suculentos! Causas perdidas! Durante 33 anos. Ah! Isso sem mencionar aquelas causas mais comezinhas: ações de divórcio litigioso entre humanos e alienígenas; de clonados que obtiveram o direito de se casar com seus clones... É!... Em todas, dinheiro. Mulheres. Inimigos distintos. Causava inveja de causar inveja...



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:46:49 PM
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BEWEGUNG 5

Hoje estou aqui. Sozinho? Como sabe-lo-ei?! Ocorre que eu enlouqueci – segundo o que o mundo preconizava –, lembro-me. Meu Deus. Aqui neste lugar. Sinto falta d’Ele. Agora perdi a noção de tempo, e o tempo de minha noção: se é que noto. Desconheço até onde estou! Não sei se estou em algum lugar: sei que um lugar está dentro em mim. Donde não posso sair; onde nada adentra. Um cômodo percebido unicamente por mim, inexiste. Não tem sentido! Que sensação bizarra! Antes conseguia escrever. Agora, não sinto nenhum membro. Onde está a faculdade de enxergar? Sinto o que se passa na mente cercada em si por si mesma. Somente a mente sinto. Com afinco. E só. Impotente para discernir se experimento o sonho ou pesadelo; a vida ou a morte! Há alguém com pena de mim?



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:46:23 PM
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BEWEGUNG 6

Recordo-me de quando a imprensa – aquele lobo sedento de notícias ibopesantes – entrevistava-me. Respondia que tudo se deu graças a Ele, ao perceber a minha evidente mediocridade literária – que eu relutei em reconhecer e admitir.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:45:33 PM
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BEWEGUNG 7

É. Estou aqui sei lá onde. Acorrentado à razão. Nem por isso tenham pena de mim!



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:45:01 PM
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BEWEGUNG 8

Devo revelar uma coisa engraçada, na qual jamais – obviamente – acreditei: Ele me disse que um tal de Baudelaire manuseou o mesmo bico-de-pena. Pena da asa do anjo. Ele estava ali. Só. Juro. Eu visitei-O. Por um instante. Posso provar. Ainda percebo. Acho. Mo' Deus! Alguém pode me ouvir, além de mim? Pesadelo? Ou apenas o monólogo da loucura?



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:44:09 PM
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BEWEGUNG 9

Se porventura cometi um crime, qual foi:

    1. ouvir aquele louco;

    2. aceitar aquela pena;

    3. ou utilizá-la como utilizei-a?


Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:43:10 PM
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BEWEGUNG 10

Ad conclusum: Não tenham pena!



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:39:20 PM
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