CAOSSADA pisada por Ricardo Wagner


ESCLARECIMENTO AO "ESBOÇO SUMÁRIO SOBRE A QUESTÃO DA PRECEDÊNCIA DO ESSENCIAL SOBRE O EXISTENCIAL NO ÂMBITO DO EXISTENCIALISMO SARTREANO"

(Texto-móvel datado de 11.08.2004)

 

 

O baluarte do racionalismo (cartesiano): "Penso, logo existo"; o do existencialismo (sartreano): "Existo, logo penso".

A dicotomia acima se reveste de invalidez. A existência não sobrevem da essência, nem esta daquela. Impossível pensar [o homem] acerca da existência e, concomitantemente, privar-lhe de uma faculdade inerente: a cognição. Em mesma sede, incabível também acolher a possibilidade de o homem pensar sem ao mesmo tempo existir. Não há existir sem pensar, nem pensar sem existir. Existência e essência se vinculam através de um mesmo umbigo? Não: em verdade SÃO mesmo umbigo. Como poderia o ser do homem lampejar com prejuízo da ideação? Ora: só existe o que detém essência, e no homem essa essência representa a faculdade de refletir e refletir-se. Se ele [o homem] chega ao mundo sem tal atributo, em verdade, ele então não chega! Ele somente existe quando pensa no tocante à necessidade de essencializar-se. Só se qualifica como existente quando se debruça sobre as escolhas dispostas à frente, sobre o sentido do seu fado. Existência se faz passível de validação – humana – quando submetida à autenticação. Só existe quando pensa = vive. E dizer que nascemos com idéias inatas equivale a admitir que nem sempre a figuração estancada em nossa mente adveio da receptividade, passiva ou não, de signos, valores professados por outrem diverso e além de nós mesmos. Não nascemos sabendo fórmulas matemáticas, mas conscienciosos da necessidade de formular o saber por mais tosco e infundado que o seja. Talvez. (?) Nem sempre o homem tem onde se apoiar na natureza afora, no sentido de que esta forneça as bases de um determinado saber. Muitas vezes resta ao homem somente o espectro da individualidade imagética, inventiva; nem tudo o que a mente humana erigiu fora inspirado tão-só pela observância capciosa da vida circundante. Basta-nos arrolar as grandes invenções insuscetíveis de similares na exterioridade: telefone, tv, automóveis, e, até mesmo religiões, ciências... O que a natureza oferece, neste caso, apenas referencia o ato da criação.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 01:01:52 PM
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No livro "AIND’ESSÊNCIA" registrei o "ESBOÇO SUMÁRIO SOBRE A QUESTÃO DA PRECEDÊNCIA DO ESSENCIAL SOBRE O EXISTENCIAL NO ÂMBITO DO EXISTENCIALISMO SARTREANO", pág. 160, objetivando esclarecer o que, talvez, à primeira vista, soou um tanto pretensioso, impreciso e equivocado ao arriscar-me em criticar o pilar central do existencialismo:

"a existência precede a essência indicando que uma pessoa não tem qualquer natureza ou conjunto de escolhas predeterminados" (Simon Blackburn, Dicionário Oxford de Filosofia, pág. 133).

Tentarei então elucidar com precisão o textículo supracitado.

Primeiramente, rejeito o dualismo essência-existência e/ou existência-essência. Afirma Hegel que a existência brota da essência. As condições de ser pensante (essência) e ser nascido (existência) são co-presentes. Afirmei no meu livro que "e o homem d’acordo com Sartre, só é existente se enquanto pensante..." Aproveitando o ensejo, reitero com certo reforço que o homem [para Sartre] só é existente se enquanto pensante. Ao contrário, apenas seria [qual uma cadeira, mesa...], em detrimento de existir. Enquanto uma cadeira é, o homem existe (Desejoso em lapidar sua essência inata e imperfeita ao ponto de defini-la total e perfeitamente no decorrer da existência?)...

Apesar de sofrer transições, o homem conserva sua identidade individual. Mesmo diferindo largamente de como do eu de outrora, podemos afirmar com convicção ser o mesmo sujeito: a essência, além de inata, é imutável, imorredoura. Não seria, no mínimo controverso, imaginar a precedência da objetividade em face da subjetividade, em termos temporais – e até mesmo lógicos? O indivíduo tateia o mundo (exterior) antes de acarear a si mesmo, interna e intimamente?!? Como assim? O mundo empírico – esse estranho! – servirá de suporte, a priori? O homem germina do mundo e não o mundo (sociedade organizada, regida pelo caos e demais leis, valores, senso comum et reliqua) do homem? Não me faço cônscio de minha própria existência indisponível antes de me cientificar da existência de um mundo ali, à frente? Só o mundo me oferece [essência] o que é intrínseco ao ser de todas as coisas existentes? Então, o mundo (esse que me aborda e muitas vezes me impele, conduz-me coercitivamente a escolher a desonestidade, ilicitude) se faz mais próximo de minha consciência do que a minha consciência se faz próxima de minha própria consciência? É certo que o homem se responsabiliza pelos seus atos externados. Mas as circunstâncias as quais nos submete o mundo físico, espiritual – metafísico – favorecem ou não o homem, quer direta, quer indiretamente.

Nem sempre o homem detém o completo domínio de si mesmo enquanto único responsável daquilo projetado. Então o acaso inexiste? Acaso o acaso exista, não contribui como força influenciável? Relutar na afirmação de que o autodomínio possivelmente escapa do indivíduo denuncia uma postura determinista? Tudo se restringe a culpa e mérito humanos? Concordo, até certo ponto, que [a humanidade] consiste no projeto que decidir de si mesma. Mas sincronizo vaia quanto à idéia de que só adquire essência durante as escolhas atinente ao que planeja ser no mundo. O ser humano enrobustece com mérito essa essência ou avilta-a. E reconhecer que a herança genética, a intervenção [espiritual] benigna e/ou maligna, que em meu livro substitui pela expressão sopro metafísico – ignorando o ateísmo sartreano, admitimo-la! – influenciam tímida ou petulantemente a vida individual não significa que objetivo justificar atos execráveis da humanidade e, menos ainda, apologizar um pré-determinismo ou, o mais absurdo, que certas condutas são determinadas biologicamente. Pois considero como sendo essência no homem a faculdade de pensar seguida de certas noções inatas, aquelas não-oriundas da experiência (d’acordo com a defensiva sartreana, escolhas feitas durante o contato com o mundo). Creio estar a mente abastecida com conceitos gerais – como Deus, a liberdade... –, capaz de saber a priori que são eles atribuíveis ao mundo exterior, fornecendo assim um conhecimento claro e distinto, ao contrário de qualquer conhecimento que possa ser certificado pela experiência. Inclusive, vale gizar que Chomsky defendeu a idéia de que as crianças nascem com uma gramática universal, permitindo-lhes alcançar o feito notável de aprender uma primeira língua. Apologizei o inatismo? Em conformidade com Kant (aquele que nos forneceu respostas plausíveis aos problemas apresentados pelo empirismo e inatismo), a razão

"é uma estrutura vazia, uma forma pura sem conteúdos. Essa estrutura (e não os conteúdos) é que é universal. (...) é inata, isto é, não é adquirida através da experiência. (...) a razão é, do ponto de vista do conhecimento, anterior à experiência. Ou, como escreve Kant, a estrutura da razão é a priori (vem antes da experiência e não depende dela)."



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 01:00:12 PM
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Se os inatistas (e empiristas) se equivocaram por demasiado objetivismo, ao julgarem que o conhecimento racional dependeria dos objetos do conhecimento, Kant também não safou-se, devido ao seu extremado subjetivismo. Defendia que o conhecimento racional dependia do sujeito, das estruturas da sensibilidade e do entendimento. Mas o que me consola

"é que a fenomenologia considera a razão uma estrutura da consciência (como Kant), mas cujos conteúdos são produzidos por ela mesma, independentemente da experiência (diferentemente do

que dissera Kant). O que chamamos de mundo ou realidade, diz Husserl, não é um conjunto ou um sistema de coisas e pessoas, animais e vegetais. O mundo ou a realidade é um conjunto de significações ou de sentidos que são produzidos pela consciência ou pela razão. A razão é doadora do sentido e ela constitui a realidade enquanto sistemas de significações que dependem da estrutura da própria consciência. As significações não são pessoais, psicológicas, sociais, mas universais e necessárias. Elas são as essências, isto é, o sentido impessoal, intemporal, universal e necessário de toda a realidade, que só existe para a consciência e pela consciência." (Marilena Chaui, Convite à Filosofia, pág. 82)

Entendo ser a essência

"o elemento básico ou primário do ser de uma coisa; a natureza da coisa, ou aquilo sem o qual ela não poderia ser o que é. Uma coisa não pode perder sua essência sem deixar de existir" (Simon Blackburn, Dicionário Oxford de Filosofia, pág. 126).

O problema reside em saber se a definição acima se restringe às coisas (objetos inanimados) pois, caso não, se o indivíduo primeiramente existe logo que chega ao mundo, só posteriormente adquirindo essência, em verdade, paradoxalmente, ele é deveras concebido qual inexistente: impossível uma coisa (homem) perder sua essência e concomitantemente não sofrer prejuízo existencial. Enfim, se é válido a definição supra para o contexto humano, o homem nasce perdido, pois d’acordo com Sartre nasce destituído de idéias inatas. É veraz que ninguém nasce balbuciando fórmulas matemáticas sequer sabendo pronunciar uma única sílaba, mas portando a faculdade de pensar:

"Significa que nascemos com a capacidade racional, puramente intelectual, para conhecer idéias que não dependem da experiência para serem formuladas e para serem verdadeiras" – verdades de razão (Marilena Chaui, Convite à Filosofia, pág. 76).

Contudo, para Sartre,

"quando nasce, o homem é nada. Não existem idéias inatas, anteriores ao surgimento do homem e destinadas a orientar sua vida, indicando que caminho ele deve seguir.

As idéias o homem as extrai de sua experiência pessoal. O indivíduo primeiramente existe; com o tempo, torna-se isto ou aquilo, quer dizer, adquire sua essência. (...) A essência humana, portanto, só aparece como decorrência da existência do homem. São seus atos que definem sua essência. Logo, inicialmente o homem existe – e só depois é possível defini-lo, conceituá-lo. Enfim, da existência decorre a essência. (...) Ao contrário dos outros seres, o homem não é predeterminado. Na semente de uma planta encontra-se tudo aquilo que ela será ao desenvolver-se normalmente. Em sua essência encontra-se determinada sua essência. (...) e contrariamente à tradição que afirma a existência de tudo que é real, proclamam [os existencialistas] a distinção entre existir e ser. O homem existe, enquanto a pedra é. Tal diferença implica que o homem, diversamente dos demais objetos existentes no mundo, é livre. Ele é pura liberdade. (...) É através da liberdade que o homem escolhe o que há de ser – escolhe sua essência (...) É a escolha que faz entre as alternativas com que se defronta que constitui sua essência. E é essa escolha que lhe permite criar seus valores. (...) Se o homem primeiramente existe, não sendo nada a princípio, se a idéia de Deus é eliminada, se a cada instante o homem tem de escolher aquilo que vai ser, então só a ele cabe criar os valores sob os quais dirigirá sua vida. Criando-os, torna-se responsável por tudo que fizer. O homem, diz Sartre, não é nada mais que o seu projeto. (...) Se, no homem a essência precedesse a existência, ele não poderia ser livre, pois desde o princípio sua vida estaria predeterminada" (João da Penha, O que é existencialismo, pág. 63).



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 12:56:14 PM
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Contesto a visão sartreana. E dizer que nascemos com idéias inatas (noções) equivale a dizer que nem sempre o que retemos em nossa mente adveio dalgum professor. O instinto nos animais irracionais equivale a noção nos racionais (nós). Insisto que a essência precede a existência, ou melhor, no homem, ambas fundem-se, coexistem: pensamento = essência; nascimento = existência. Incabível um indivíduo desprovido de mente existir na condição de indivíduo. Logo, a essência do homem é a existência [mental]. Só existe enquanto pensa. Homem sem mente, homem desalmado, morto! E a finalidade última do homem é ocupar espaço? Experienciar qual um vegetal, confinado à percepção passiva de sensações? O corpo é a ponte quebradiça que nos conecta ao mundo. E um mundo organizado denuncia uma essência também organizada. Sartre afirmou que o homem é responsável, livre para escolher o que bem quiser de si, para si mesmo. Pergunto: Houve – historicamente – um homem denominado Jesus Cristo, com atributos humanos e divinos coexistentes. Ele foi o que foi por que decidiu definir este projeto de Si, ou – aos crentes – por que Sua condição já restou predeterminada? Mas Sartre não cria nisso... Concluindo: conforme minha interpretação, Sartre ressaltou que o homem só existe se enquanto pensante, referi-me ao seguinte: concordo que uma mesa é, um homem existe. Somente o indivíduo é dotado de tal condição. Só ele pensa, reflete, isto é, dispõe de liberdade, usufruto da escolha – embora limitada por fatores sociais, intelectuais, espirituais e institutos da tradição. Só ele é livre! Sim. E a possibilidade de ser livre coaduna com a faculdade de ser pensante. Livre para escolher! Existe livremente, pensante. Quando opta, aciona as idéias. O homem primeiramente existe, porque pensa, sabe (que não é um barato copo de vidro). O homem primeiramente existe = vive. Vive porque é concebido com a disposição de uma mente. Destituído de mente, resta-lhe apenas o corpo que, sem mente, assume a condição dum copo de vidro, cadeira, vibrador...

Em verdade, Sartre nos presenteou com uma contradição, haja vista que, segundo ele, o indivíduo primeiramente existe, só depois vem a se definir, adquirindo essência. Então:

  1. Como existe sem essência?

  2. Se existe, pensa! E se pensa, tem essência!

  3. Se pensa, existe! Logo, tem essência!

 

O homem nasce com essência, malgrado indefinida.

Obs.: Espero que as linhas acima exaradas não sejam suporte aos argumentos favoráveis à legalidade do aborto nos casos de bebês a(nen)céfalos.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 12:50:54 PM
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Desaureolizemos o poeta!

Esse ego rastejante...

Quando perfurado

Pela palavra-multigumes

Donde vazam e migram

Egos menores

Abreviados a egotículas

Envaidecidas da umidade idônea

À oxidação do emeio inteiro

Tão-só c'uma palavra-suor...



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 01:46:26 PM
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 Conduta Anatômica da Pedra

 

 Paul Klee – AMAM

 

 

Pedra ejacula

Quando lodo

Roça textura,

Dejeto aéreo

Agacha sobre

Nuca dura.

 

Pedra, imuda:

Improtrai trama

Para o dentro da terra

Cujo silêncio unilateral

Não delata acessório,

Mas verruga irrenunciável.

 

Pedra, tímida, dotada

Da voz que não caminha.

 

E planta lodo musgo

Agrupam pubianos verdes

Ornando geológica glande

Estóica, paciente

A enredar

Contra urina humana

Escorrente da face anciã.

 

Rocha, imuda;

Muda, pentelho verde;

Pedra, fruto já nascido

Maduro.



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 01:34:50 PM
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proximidade corporal

condiz com presença?

 

posso

ao lado

sobre

embaixo

dentro

estar de alguma puta estéril

entanto a mente

na puta que pariu

fértil



Escrito por Ricardo Wagner Alves Borges às 05:47:40 PM
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